A pandemia da COVID-19 atuou como um catalisador para uma das maiores transformações no mundo do trabalho em décadas: a rápida e massiva adoção do teletrabalho e, consequentemente, a consolidação dos modelos de trabalho híbridos. O que antes era uma tendência, tornou-se uma realidade incontornável para milhões de profissionais em todo o mundo, incluindo no Brasil. Para os profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho (SST), essa mudança trouxe uma nova gama de responsabilidades e desafios.
Embora a flexibilidade, a autonomia e a otimização de tempo com deslocamentos sejam benefícios inegáveis dessas novas modalidades, é crucial reconhecer que elas também trouxeram à tona uma série de desafios ergonômicos e psicossociais que impactam diretamente a saúde e o bem-estar dos trabalhadores, demandando uma atenção redobrada da área de SST.
O Lado B da Conectividade Total: Riscos Psicossociais e a Atuação da SST
A principal bandeira do teletrabalho é a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar, mas essa mesma liberdade pode se tornar uma armadilha se não for gerenciada sob a ótica da SST. A “digitalização” das nossas rotinas profissionais diluiu as fronteiras entre a vida pessoal e a profissional, gerando impactos significativos que se enquadram nos riscos psicossociais, agora formalmente exigidos pela NR-01:
- A Dificuldade de Desconexão e o Risco de Sobrecarga Psíquica: Sem a barreira física do escritório, muitos profissionais sentem-se constantemente “ligados” ao trabalho. Aquele e-mail que chega fora do horário, a mensagem no grupo da equipe ou a simples proximidade do computador de trabalho em casa podem levar a uma sobrecarga mental, dificultando o descanso e a recuperação. O resultado é um aumento nos níveis de estresse, ansiedade e até mesmo casos de burnout, exigindo que a SST atue na conscientização sobre os limites de jornada e a importância do direito à desconexão.
- O Isolamento Social e a Saúde Mental: A interação diária com colegas é um pilar fundamental da cultura organizacional e do bem-estar psicossocial. A ausência dessas trocas informais, dos cafés e das conversas de corredor no teletrabalho pode levar a sentimentos de solidão, isolamento e diminuição do senso de pertencimento à equipe e à empresa. A SST deve propor estratégias para fomentar a interação social, mesmo que virtual, e monitorar indicadores de bem-estar psicológico.
- Sobrecarga de Trabalho e Gestão do Tempo: Para alguns, o teletrabalho intensificou a carga de trabalho. A ausência de horários fixos de saída e a percepção de que “estão sempre disponíveis” podem levar a jornadas exaustivas. A gestão do tempo e a autodisciplina tornam-se cruciais para evitar a sobrecarga e manter a produtividade de forma saudável, sendo papel da SST orientar sobre o equilíbrio entre vida profissional e pessoal e monitorar horas trabalhadas.
A Ergonomia no Home Office: Uma Prioridade da SST
Quando o trabalho migrou para as casas, muitas vezes de forma emergencial, a preocupação com a ergonomia ficou em segundo plano. Mesas de jantar, cadeiras inadequadas e iluminação precária se tornaram o novo “escritório”. Essa realidade gerou um aumento expressivo de queixas relacionadas a dores musculares, problemas de coluna, fadiga visual e outros distúrbios osteomusculares, demandando uma intervenção direta da SST.
- A importância da postura e o mobiliário adequado: Uma cadeira ergonômica, a altura correta da tela do computador (na linha dos olhos), o uso de teclado e mouse ergonômicos e apoio para os pés são essenciais para prevenir Lesões por Esforços Repetitivos (LER/DORT) e outras dores. A SST deve fornecer orientações detalhadas e, quando possível, auxiliar na aquisição ou adaptação de equipamentos.
- Ambiente de trabalho seguro e confortável: Iluminação natural ou bem distribuída, ventilação adequada, organização do espaço e redução de ruídos contribuem para o conforto e a produtividade, minimizando a fadiga e o desconforto. A SST precisa orientar sobre as condições ideais do ambiente de trabalho doméstico.
- Pausas ativas e ginástica laboral: A orientação para a realização de pequenas pausas durante a jornada, com alongamentos e mudanças de postura, é vital para romper o sedentarismo e aliviar a tensão muscular. Programas de ginástica laboral online ou webinars sobre ergonomia são ferramentas valiosas da SST.
Gestão de Equipes Remotas e Híbridas: A SST no Apoio às Lideranças
Para as lideranças, a gestão de equipes que operam em modelos remotos ou híbridos apresenta um novo conjunto de desafios que se refletem na segurança e na saúde dos trabalhadores. A SST tem um papel consultivo e de apoio crucial para os gestores:
- Comunicação clara e constante: É fundamental estabelecer canais de comunicação eficientes e garantir que todos os membros da equipe, independentemente de estarem no escritório ou em casa, recebam as mesmas informações e oportunidades. A SST pode atuar na orientação sobre comunicação não violenta e feedback construtivo.
- Promoção da interação e coesão social: Criar momentos de interação social, mesmo que virtuais, e incentivar a colaboração entre os membros da equipe para fortalecer os laços e o senso de pertencimento é vital para mitigar o isolamento.
- Avaliação de Riscos e Plano de Ação: A SST é responsável por realizar a análise de riscos ergonômicos e psicossociais específicos do teletrabalho e do modelo híbrido, integrando-os ao PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) e elaborando planos de ação para mitigar esses perigos.
- Treinamento e Capacitação: Oferecer treinamento contínuo para trabalhadores e líderes sobre os riscos do teletrabalho, as melhores práticas de ergonomia, gestão de estresse e uso saudável da tecnologia.
- Suporte Psicossocial: Garantir que existam canais de apoio psicossocial disponíveis para os trabalhadores, como programas de bem-estar, acesso a terapeutas ou linhas de apoio.
O Compromisso da SST com um Futuro do Trabalho Mais Seguro e Saudável
A digitalização do trabalho é uma realidade irreversível e o teletrabalho e os modelos híbridos vieram para ficar. O grande desafio agora é garantir que essa evolução ocorra de forma saudável e sustentável, e a área de Saúde e Segurança do Trabalho é protagonista nesse processo.
Empresas e profissionais de SST precisam trabalhar ativamente para criar um ambiente onde a flexibilidade seja acompanhada de políticas claras de desconexão, investimentos em ergonomia, estratégias robustas de comunicação e uma cultura que valorize o bem-estar integral. Só assim poderemos colher os frutos da digitalização sem comprometer a saúde física e mental dos nossos profissionais, garantindo a conformidade com as normas e, acima de tudo, a proteção da vida no ambiente de trabalho, onde quer que ele esteja.
Sua empresa, sob a ótica da SST, já adaptou suas políticas para o teletrabalho e o modelo híbrido? Quais os maiores desafios que você, como profissional de SST ou trabalhador, tem enfrentado nessa nova realidade? Compartilhe sua experiência nos comentários!



